Copenhaga: um olhar às narrativas mais chocantes

A semana passada foi absolutamente extraordinária, cheia de mais drama e consequência que qualquer outra coisa que tenha presenciado neste verde mundo nos seis anos que o tenho estado a cobrir. Foi a junção de tantas forças e narrativas que o enredo virá desembrulhar nos próximos anos, não dias. 
Para um olhar próximo aos pormenores do Acordo de Copenhaga, veja Robert Stavins. Para um maravilhoso tick-tock sobre como decorreu o último dia, veja John Vidal e Jonathan Watts. Para mais análise, veja Andrew Light, Michael Levi, Jeremy Symons, Julian Wong, Jake Schmidt, e Noah Sachs.
Uma vez recuperado o meu fôlego após um par de semanas loucas, aqui vão alguns dos mais chocantes enredos que me marcaram.
Contraste de Expectativas

 
O que fez que Copenhaga tivesse um ambiente tão carregado, foi o choque de duas forças. Por um lado: expectativas em alta, compromisso e intensidade por parte da sociedade civil. Os activistas passaram os dois últimos anos a caracterizar o COP15 como a última oportunidade da humanidade para se salvar; o sucesso tem forma de um acordo completo legalmente vinculativo cujo alvo estava a 350 ppm de gases contaminantes na atmosfera. Por outro lado: a conjunto de circunstâncias politicas e líderes que reproduziram as aspirações dos activistas, impossivelmente.
Uma situação como esta, está condenada a acabar em conflicto. E assim foi: os grupos da sociedade civil foram impedidos de entrar no Bella Center de Copenhaga durante os dois últimos e cruciais dias de negociações, e acabaram improvisando marchas e mobilizações nas ruas. Quem sabe se era intencionado como insulto directo da UNFCCC ou dos Dinamarqueses— se as informações sobre o terreno são credíveis, um não pode desculpar a incompetência na gerência e na logística— mas criou uma imagem desastrosa: uma mobilização jovem, vibrante e diversa impedida de entrar enquanto lideres políticos negoceiam o seu futuro trás as portas.
Os limites dos políticos tornaram-se “oficiais”, como foi, isolados das pessoas cujas vidas estão em causa. Não se podia ter concebido um resultado que mais facilmente gerasse a fúria e o desespero entre activistas, e tem havido muitos. A zanga com Obama e outros líderes mundiais, o sentimento de traição é palpável e não deve ser menosprezada ou minimizada.
Ao mesmo tempo, esta fúria não se deve tornar auto-complaciente. Nem deve servir para obstaculizar as características mais sistémicas ou institucionais dos desafios pela frente.
Líderes nisso

 
Um acontecimento do mais inusual e fascinante que a cimeira trouxe é o facto de que todos os líderes políticos se sujaram para negociar o texto. Isto nunca acontece. Quando os líderes chegam às negociações internacionais, habitualmente esperam assinar algo que já esteja redigido, clamam vitória, e voltam para casa. No máximo existe um punhado de assuntos por discutir. A passada Sexta-feira em Copenhaga havia muitos pendentes, pequenos e grandes, quando mais de 100 líderes políticos chegaram. Isto, deixou-os num jogo frenético de chamadas, filtrações e reuniões, às vezes com negociadores de meio nível, às vezes, um a um, outras inclusive inesperadas, como quando Obama ligeiramente intrometeu-se numa reunião com a China, Índia, e Brasil.
Numa conferência de imprensa posterior, o Assistente ao Secretário-Geral da ONU, Robert Orr comentou sobre o que tinha acontecido como algo intimidatório. Disse que não tinha visto tantos líderes políticos numa negociação, e muito menos directamente envolvidos na redacção de pormenores dos textos. Para começar, disse, todos sabiam de quê se falava, até os pormenores mais minuciosos.
Leia o artigo completo no site de Grist.
 
Fonte: http://tcktcktck.org/stories/climate-news/copenhagen-look-back-most-striking-narratives
 

Em solidariedade,

O Coordenador da Campanha Pobreza Zero – GCAP Portugal

This entry was posted on Quarta-feira, Dezembro 30th, 2009 at 13:11 and is filed under Info Geral. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

 

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