Crise Alimentar… a continuação de uma triste estória.

O Progama “Al Jazeera’s Inside Story” discute com diversos convidados e convidadas: Abdolreza Abbassian, economista na FAOrganisation, Sylvia Borren, a Vice-Direcotra da Pobreza Zero Internacional (Global Call to Action Against Poverty – GCAP), e Vandana Shiva, activista ambiental e autora.

O Director-Geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), Jacques Diouf, afirmou, ontem, ser possível erradicar a fome no mundo, mas alertando, no entanto, que a comunidade internacional tem de “agir rapidamente”.
“Estou convencido de que juntos podemos erradicar a fome no nosso planeta, mas para isso temos de passar das palavras aos actos”, afirmou o responsável na sessão de encerramento da cimeira da FAO, que decorreu entre a passada segunda-feira e ontem, em Roma, na Itália.
“Temos de trabalhar para ter um mundo mais próspero, mais justo, mais equitativo e mais pacífico. Mas, acima de tudo, teremos de o fazer rapidamente: os pobres e as pessoas com fome não podem esperar”, declarou Diouf, após três dias de cimeira, que reuniu cerca de 60 chefes de Estado e de governo e líderes de organizações internacionais.

Principais líderes mundiais ignoram a cimeira de Roma

Mas a cimeira da FAO foi marcada pela ausência dos principais líderes mundiais, nomeadamente do G8 (Alemanha, França, Itália, Reino Unido, Canadá, Estados Unidos da América, Japão e Rússia).
A excepção foi o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, anfitrião do encontro.
“Uma única reunião não pode resolver o problema da fome no mundo, mas esperávamos mais. A ausência quase total de líderes dos países mais ricos enviou um sinal errado desde o início do encontro”, denunciou um porta-voz da organização não governamental (ONG) Oxfam, Gawain Kripke.
A ausência de metas concretas para a erradicação da fome e de um calendário na declaração final da cimeira foram outras das críticas das várias organizações presentes no encontro, aspectos que também foram lamentados pelo director-geral da FAO.
Segundo a Organização das Nações Unidas, existem, neste momento, mil milhões de pessoas a passar fome no mundo, mais 100 milhões do que em 2008.
Trata-se de um valor que vai aumentar até 2050, ano em que a população mundial irá rondar os 10 mil milhões de habitantes.

Agência Lusa

No site do Le Monde

podemos ver um gráfico com a distribuição geográfica do impacte da fome no mundo!

ver aqui

A Nossa Visão

Somos quase 6 mil milhões de habitantes no planeta Terra, sendo que 1,2 mil milhões de nós sobrevive em condições de extrema pobreza (20% da população mundial), isto é, vive com menos de um dólar por dia. Destes, 70% são mulheres 6,3 milhões de crianças morrem de fome por ano e existem 842 milhões de pessoas subnutridas no mundo.

Alguns Factos

· Mil milhões de pessoas (mais de 70% são mulheres) já foram afectadas pela fome crónica e sofrem com condições de vida severamente duras;
· O preço dos óleos vegetais aumentou em 97% durante os primeiros três meses de 2008 e até hoje a expeculação continua;
· O preço do trigo aumentou 87%;
· Os derivados do leite aumentaram 58%;
· O arroz aumentou 46%;
· A crise de alimentos já foi reconhecida em pelo menos 37 países;
· Dos 2,13 mil milhões de toneladas de alimentos produzidos, apenas 1,01 mil milhões servem para a alimentação de seres humanos;
· Os países em desenvolvimento poderão ter de importar mais 33% de alimentos no ano em curso;
· O Relatório Mitchell do Banco Mundial afirma que quase 65% do aumento nos preços estão relacionados com factores ligados à produção de biocombustíveis.

As Causas: uma combinação de factores

· O crescimento demográfico e a crescente procura de alimentos na Índia, na China e em outras economias emergentes;
· As alterações climáticas;
· A aposta nos biocombustíveis faz aumentar o preço dos cereais e contribui para a utilização intensiva de solos aráveis e a desflorestação;
· A subida dos factores de produção, em particular dos combustíveis e fertilizantes;
· O desinvestimento na agricultura familiar e a concentração do investimento na produção de empresas transnacionais do sector agro-alimentar;
· A especulação financeira em torno do mercado de futuros, provocando um aumento artificial do preço dos cereais;
· Fracasso das propostas de desenvolvimento de um sistema global de comércio mais justo/fracasso das negociações da chamada “Ronda de Doha”;
· Os países ricos falharam no cumprimento da promessa dos 0,7% do RNB para a Ajuda Pública ao Desenvolvimento (APD), que poderia ter contribuído para diminuir a vulnerabilidade das pessoas mais pobres às flutuações dos preços dos alimentos;
· Muitos governos dos países em desenvolvimento falharam nas suas políticas de protecção legal do direito à terra e à herança, em particular no caso das mulheres rurais;
· Índices de alfabetização insuficientes e fracos incentivos ao crédito para o fortalecimento da agricultura familiar (praticada essencialmente pelas mulheres rurais), que poderia permitir níveis de subsistência sustentáveis;
· Em alguns países em desenvolvimento, os governos falharam nos mecanismos de monitorização dos preços dos bens alimentares, não conseguindo impor uma transparência nos mercados agrícolas e não garantindo reservas alimentares estratégicas.

Os Efeitos sobre as Pessoas

· Milhões de pessoas que já são pobres, especialmente mulheres, não conseguem adquirir alimentos básicos como arroz e milho, aumentando os níveis de insegurança alimentar e a subnutrição;
· As mulheres não conseguem alimentar as suas famílias – elas já gastavam três quartos do rendimento familiar mensal na compra de alimentos, e precisam agora fazer a dura escolha entre consumir menos alimentos ou comer alimentos mais baratos e menos nutritivos;
· Com o aumento da fome, cresce também o descontentamento social – em muitos países, os protestos têm sido reprimidos e dezenas de pessoas já perderam as suas vidas em confrontos com a polícia. Protestos relacionados com a fome já aconteceram em pelo menos 40 países;
· Os esforços para realizar os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM) têm sido seriamente minados à medida que as taxas de saúde materna e mortalidade infantil aumentam com a falta de comida; as famílias deixam de mandar as suas crianças à escola por causa da fome; e aumenta a necessidade do trabalho infantil. Investimentos governamentais para a prestação de serviços essenciais são agora canalizados para a ajuda de emergência;
· O rendimento per capita está a diminuir, e muitos trabalhadores estão a perder os seus empregos, gerando um efeito em cadeia à medida que a crise alimentar afecta os empregadores;
· Os movimentos de pessoas sem abrigo à procura de alimentos vai aumentar e, em alguns países, estão em curso preparativos até mesmo para evacuações.


Porque é que nada é feito para evitar as sucessivas crises alimentares?

Por causa da fé dogmática nos poderes do mercado. É evidente que o mercado é o sistema que mais incentiva a criação de riqueza, através do estímulo à produção e consumo de bens e serviços. Mas é também evidente que o mercado, por fundar-se na competição, beneficia os fortes e prejudica os fracos. Quando não é regulado, tende a agravar as desigualdades sociais. São os pobres quem perdem.

This entry was posted on Quinta-feira, Novembro 19th, 2009 at 17:44 and is filed under Info Geral. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

 

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